quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

O paiaçu dos índios
















































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O paiaçu dos índios
Ronaldo Vainfas (*)
No Maranhão, dedicou-se obsessivamente a construir a missionação e a combater o ânimo escravagista dos colonos durante o dia. À noite, estudava as profecias de Bandarra (1500-1556), sapateiro e profeta português que escreveu trovas de caráter messiânico. Quase nada no mundo parecia sensibilizá-lo, fosse a natureza exuberante, como no Brasil, fosse a beleza arquitetônica, como nas cidades europeias. Gostava de ler, escrever e discursar no púlpito, além de negociar assuntos espinhosos em gabinetes fechados com poderosos.
O padre Antônio Vieira (1608-1697) desembarcou em São Luiz do Maranhão, em 16 de janeiro de 1653, à frente de pequeno grupo de padres. A cidade abrigava cerca de 600 famílias e colonos vivendo em palhoças. A grande maioria dos historiadores considera que Vieira se imbuiu do maior espírito missionário possível no longo período em que atuou como Superior das aldeias jesuíticas no norte. É verdade.
Entre 1653 e 1661, Vieira percorreu extenso território visitando Belém do Pará, a serra de Ibiapaba no Ceará e diversas partes do Maranhão. Viajava em comboios de canoas protegidas por índios flecheiros, atentos a qualquer ruído que sinalizasse a presença de inimigos. Era uma navegação perigosa na imensidão dos rios amazônicos, silêncio apenas rompido pelo barulho dos bichos. Vieira já era veterano de viagens perigosas no mar, entre tempestades e corsários, mas não conhecia nada daquele mundo de riachos, canais e igarapés que adornavam o Tapajós, o Tocantins e o Amazonas, rio-mar, em cuja foz os grandes rios desembocavam.
A correspondência de Vieira, aqui e ali, demonstra a melancolia de seu estado de espírito, sobretudo nos primeiros meses, ainda que nas cartas oficiais ao rei ou autoridades jesuíticas prevalecesse o ânimo missionário e a postura combativa. Para quem tinha percorrido metrópoles europeias, com seus palácios e monumentos, discutindo em Paris ou Haia elevadas questões de Estado, aquele mundo silvestre era quase uma provação. Com o passar do tempo, Vieira se habituou àquela vida rústica e por vezes até se vangloriou de passar por tudo aquilo, quase um martírio.
Quando não estava em ação supervisionando as missões, visitando aldeias ou discutindo com os colonos na Câmara de São Luiz, vivia trancado na cela do Colégio de Nossa Senhora da Luz. Era um espaço estreito, com uma esteira de tábua que lhe servia de cama. Vestia uma roupeta esfarrapada de pano grosso, calçava sapatos de couro de porco montês, e passava as noites em sua cela com livros amontoados.
No Maranhão, dedicou-se obsessivamente a construir a missionação e a combater o ânimo escravagista dos colonos durante o dia. À noite, estudava as profecias de Bandarra (1500-1556), sapateiro e profeta português que escreveu trovas de caráter messiânico. Quase nada no mundo parecia sensibilizá-lo, fosse a natureza exuberante, como no Brasil, fosse a beleza arquitetônica, como nas cidades europeias. Gostava de ler, escrever e discursar no púlpito, além de negociar assuntos espinhosos em gabinetes fechados com poderosos.
Vieira também adorava se meter em confusões. E isso não faltou nos oito anos em que permaneceu no norte do Brasil como Superior das missões. Antes de tudo, havia a própria dificuldade na montagem dos aldeamentos e a doutrinação cristã. Os jesuítas tinham de partir praticamente do zero, pois as tentativas anteriores terminaram em tragédia. Padre Francisco Pinto (1552-1607), um corajoso jesuíta que pregava imitando os pajés, ganhando fama de feiticeiro, caiu prisioneiro dos tapuias tocarijus, em 1609, e morreu trucidado. Outros missionários tiveram destino semelhante.
Apesar de sua experiência de campo ser modesta, Antônio Vieira tinha inegáveis qualidades para organizar a missionação dos índios do norte. Havia quase um quarto de século que não pisava em aldeamentos indígenas, mas sua capacidade de liderança compensava. Os padres da missão maranhense obedeciam cegamente às suasordens, muitos orgulhosos, todos maravilhados em ter um comandante daquela estirpe. Atuou antes de tudo como supervisor, estrategista da missionação, nem tanto como catequista.
Orientava os companheiros como um capitão de armas, comandante de autênticos “soldados de Cristo”. Um dos mais belos discursos de Vieira foi o sermão do Espírito Santo, proferido em São Luiz no ano de 1657: “Os missionários que Portugal manda ao Maranhão, posto que não tenha nome de império nem de reino, são verdadeiramente aqueles que Deus reservou para a terceira, última e dificultosíssima empresa, porque vem pregar a gentes de tantas, tão diversas e tão incógnitas línguas, que só uma coisa se sabe delas, que é não terem número…”
 Vieira alertava os bravos missionários dos perigos daquela “dificultosíssima empresa”, porém lembrava que a morte em martírio era o que de melhor se poderia esperar desta vida. O ponto alto desse sermão, tão bem explorado por Viveiros de Castro, reside no preâmbulo, quando Vieira apresentou o significado preciso da catequese através da metáfora do mármore e da murta, uma pequena árvore: “A estátua de mármore custa muito a fazer, pela dureza e resistência da matéria; mas, depois de feita uma vez, não é necessário que lhe ponham mais a mão: sempre conserva e sustenta a mesma figura; a estátua de murta é mais fácil de formar, pela facilidade com que se dobram os ramos, mas é necessário andar sempre reformando e trabalhando nela, para que se conserve.”
O mármore, símbolo da fé dos povos cultos era de uma firmeza inquebrantável. A murta, um arbusto que representava a inconstância selvagem. O gentio podia receber bem a doutrina de Cristo, mas logo dela se afastava. Já o missionário, como o jardineiro, não podia descurar da poda diária, constante. Daí que os índios, nas palavras de Vieira, eram como feras; selvagens falantes de línguas bárbaras, tão bárbaras quanto numerosas. Eles só valeriam por sua alma aberta à palavra de Deus.
Antônio Vieira exprimia, na verdade, uma versão radical do jesuitismo missionário, empenhado em destroçar os costumes e crenças indígenas. Seus colegas pensavam do mesmo modo, embora tentassem compreender as línguas nativas, os símbolos, os costumes, como fez Anchieta, para utilizá-los a favor da missão. A diferença é que muitos deles conseguiram ultrapassar a fronteira da divergência cultural a ponto de pensarem nos costumes nativos como regras a serem aprendidas. Vieira não chegou a tal ponto. Não saiu da trincheira católica e só se dedicava a estudar os costumes nativos com propósitos instrumentais.
Há registro, porém, não se sabe se verdadeiro ou lendário, que chegou a compor um catecismo em seis línguas diferentes, além de um diálogo evangelizador, similar ao Diálogo sobre a conversão do gentio, do padre Manuel da Nobrega (1517-1570), que chefiou a primeira missão jesuítica na América. Mas tanto o catecismo plurilinguístico como o tal diálogo se perderam. Vieira não abandonou, portanto, a velha estratégia de conquistar a alma indígena por meio de símbolos da cultura nativa. Chegou a recomendar, em uma carta de instrução, que se deviam incorporar máscaras e cascavéis nas danças das procissões, “para mostrar os gentios que a lei dos cristãos não era triste”. Recomendou muita pompa nos batismos, sempre “necessária aos olhos da gente rude, que só se governa pelos sentidos”, muita tinta nos sepulcros. O padre acreditava que os índios apreciavam tudo que fosse colorido.
Na verdade, Vieira não tinha nenhuma empatia pelo modo de vida indígena, qualquer que fosse a nação: tabajaras, potiguaras, tocarijus, jurunas, pajaís, arnaquizes e muitos outros que citou em seus relatórios e cartas. Detestava, em especial, um grupo genericamente chamado de nheengaíbas, falantes de várias línguas, que viviam na Ilha de Marajó. Eram os mesmos que tinham trucidado o padre Luís Figueira em 1643. Esses índios, que pertenciam ao tronco arawak, moviam guerra incessante contra colonos e padres, rejeitando a missão.
Mais que todos os jesuítas atuantes no Brasil, o padre Antônio Vieira era um colonizador de almas, preocupado seriamente com a salvação dos nativos no foro espiritual. Para isso, considerava essencial mantê-los em liberdade e combater, sem trégua, a rapinagem dos colonos. Foi a essa grande causa que ele se dedicou durante oito anos no Maranhão.
O grande amor que sentia pelos índios, e recomendava aos missionários de campo, era um amor abstrato, nada mais que a caritas (caridade) recomendada pelos apóstolos. Talvez por isso, mais do que por sua atuação doutrinária, ficou conhecido entre os índios como Paiaçu (“Pai Grande”). Os índios aldeados, pelo menos esses, compreenderam perfeitamente que Vieira, do seu jeito, lutava por eles.
(*) Ronaldo Vainfas é professor da Universidade Federal Fluminense e autor de A heresia dos índios: catolicismo e rebeldia no Brasil colonial (Companhia das Letras, 2010).


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